Raio X da Saúde: Crise financeira ameaça o futuro do Hospital SJN e do PAM

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Hospital São João Nepomuceno (Foto: Portal SJ Online)

Há pouco mais de 15 dias, a população de São João Nepomuceno foi surpreendida com um princípio de paralisação dos médicos do Pronto Atendimento e do Hospital São João, os únicos da cidade. Durante algumas horas, a equipe de médicos e acadêmicos informou que atenderia apenas os casos de extrema urgência. As razões eram os salários dos mais de 120 funcionários – além dos acadêmicos e estagiários – que estavam atrasados há 3 meses.

Após a pressão da classe e da sociedade, o dinheiro chegou. Atualmente todos os compromissos estão em dia. A situação dos Hospital e do PAM, entretanto, segue delicada e preocupante. Falta verba de custeio. De acordo com o administrador, Sebastião “Paraná”, será preciso ajustar a capacidade de atendimento do hospital e fazer os cortes necessários, inclusive no quadro de funcionários.

“Em três meses nós vamos ver, de fato, de que tamanho nós somos. Se temos 126 funcionários e não podemos arcar com tudo isso, vamos ter que ficar com menos de 100 para que nós possamos suportar”, explica.

O HSJ é uma instituição filantrópica autônoma – ou seja, não pertence a nenhum governo ou prefeitura. As verbas de custeio são oriundas de convênio com o Governo Federal, Estado e municípios, entre eles o de São João Nepomuceno, e repassadas ao Hospital pela Prefeitura, por meio do Fundo Municipal de Saúde.

 Fontes de receita do Hospital São João:

FONTE DE RECEITA VALOR DO REPASSE MENSAL
Convênio rede SUS (Governo Federal) R$ 139.000,00
Rede de Urgência e Emergência do Estado (MG) R$ 100.000,00
Convênio Prefeitura de São João Nepomuceno R$ 135.000,00
Convênio Prefeitura de Goianá R$ 3.000,00 (PAM)

 

A situação alarmante dos Hospitais Públicos da Zona da Mata mineira não é novidade e já havia sido mostrada em diversas reportagens. Destacamos a matéria “Hospitais da Zona da Mata de MG operam sob risco de fechamento ou colapso” publicada pelo site Redator Chefe, do jornalista Aristides dos Santos.

O atraso nos repasses do Governo provocou o atraso nos salários, que gerou o princípio de paralisação ocorrido no início de agosto, demonstrando a situação frágil em que se encontram as finanças do HSJ. A aspecto humano é muito bem avaliado. Quase a totalidade dos pacientes entrevistados pelo Portal SJ Online relataram que são satisfeitos com o atendimento que recebem dos profissionais. A estrutura e a falta de recursos é que deixa a desejar.

De acordo com o provedor da instituição, Sebastião “Paraná”, durante o princípio da paralisação dos médicos – que ameaçaram não realizar partos, entre outros procedimentos – o hospital correu risco de ser denunciado ao ministério público e, por consequência, perder o credenciamento na rede de Urgência do Estado. Seria o “tiro de misericórdia” para uma instituição que, financeiramente, está na UTI.

O atual Secretário Municipal de Saúde, Plínio Furtado, não informou valores nominais e explicou que a prefeitura investe cerca de 30℅ do orçamento total do município na área da saúde. Mais do que é estipulado por lei. Nesse montante, estão as verbas destinadas a todos os segmentos como, policlínica, as UBS, o Ceasm e o convênio com o Hospital, que inclui a verba do PAM.

Município que enviam pacientes para o PAM

Repasse de recursos para o PAM

São João Nepomuceno R$ 135.000,00 por mês + parcerias com as secretarias
Descoberto
Rochedo Repassou uma única vez R$ 3.000,00
Rio Novo
Bicas
Goianá R$ 3.000,00 em convênio firmado recentemente
Coronel Pacheco
Maripá
Mar de Espanha
Pequeri
Guarará
Senador Côrtes

 

SOBRECARGA NO PRONTO ATENDIMENTO MÉDICO (PAM)

 Ambulancia Samu PAM SJN
O PAM de SJN faz parte da Rede de Urgência e Emergência do Estado de MG

O Pronto Atendimento Médico do Hospital São João Nepomuceno (PAM), faz parte da rede de Urgência e Emergência do Sistema Único de Saúde desde 2008 e existe para suprir as demandas de urgência e emergência na cidade. Atualmente, dá suporte para cerca de 13 municípios da microrregião e realiza mais de 3.500 atendimentos por mês.

O problema é que apenas 20% dos atendimentos são, de fato, urgência ou emergência. A grande maioria são demandas fora desse escopo, muitas vezes clínicas e até mesmo de exames, o que vem causando sobrecarga da equipe, escassez de recursos e aumento do tempo de espera dos pacientes que realmente necessitam. Para piorar, apenas dois municípios que utilizam o serviço contribuem financeiramente para o custeio.

A supervisora e gerente administrativa do Hospital São João e do PAM, Luciane Vieira Dutra, explica que o papel Pronto Socorro é atender emergências e estabilizar casos graves, de urgência, para que possam ser encaminhados de acordo com a necessidade.

Na prática, entretanto, não é o que acontece. “Todo mundo que chega na porta é atendido. Nós não voltamos ou encaminhamos o paciente. É uma decisão polêmica, mas definimos que aqui todos que vierem serão atendidos”, afirma Luciane.

Por conta dessa postura, a porta do PAM de SJN vive cheia. A equipe de profissionais tem aproximadamente 35 funcionários, além dos médicos residentes, para dar conta da demanda. Na média, 110 pessoas são atendidas por dia. Destes, apenas 20% são casos graves. Os outros 80% dos casos não apresentam característica de urgência e deveriam receber atendimento em postos de saúde, na policlínica ou pelos médicos do Programa Saúde da Família (PSF).

Números do PAM:

  • Média de atendimentos dia: 110
  • Média de atendimentos mês: 3500
  • Municípios atendidos pelo PAM: 13
  • População total da microrregião atendida pelo PAM: 70 mil habitantes

Estrutura:

  • 5 médicos
  • 8 técnicos
  • 9 enfermeiros
  • 2 técnicos de Raio X
  • 4 motoristas
  • 4 maqueiros
  • 4 recepcionistas
  • 2 faxineiros
  • Laboratório de análises 24h
  • Ambulância do município e outra do SAMU
  • Farmácia própria e suprimentos

De acordo com Luciane, a decisão de atender a todos e não “voltar o paciente” é um consenso da administração do Hospital, por entender que é papel da rede SUS prestar atendimento médico a todo cidadão que necessite e porque a cidade não oferece cobertura satisfatória do PSF.

“Muita gente reclama conosco da demora para ser atendido. Mas as pessoas que vem ao PAM precisam entender que, se não for emergência, pode demorar sim, porque a prioridade sempre é de quem apresenta um quadro mais grave. Não é por ordem de chegada”, explica Luciane.

Triagem e tempo de espera do paciente

A reportagem do SJ Online conversou com diversos usuários do PAM ao longo de visitas realizadas durante o mês de julho. Nessas visitas, ficou constatado que, de fato, a maioria dos usuários do PAM não apresenta quadro de urgência ou emergência – de outra forma, não poderiam ter, sequer, concedido entrevistas.

Entre os entrevistados, a grande maioria fez o mesmo relato: procuram o PAM pela certeza do atendimento (o PAM não volta ou reencaminha o paciente), por conta do bom atendimento que recebem dos profissionais, ou porque não há consulta disponível no posto de saúde do bairro em que residem, e acabam “consultando” no PAM.

Na percepção dos usuários, o atendimento é demorado, mesmo assim procuram o PAM pela certeza de que serão atendidos. “A gente sabe que aqui pode até demorar, mas vamos conseguir o atendimento”, disse uma usuária que estava com a filha no colo e não quis se identificar. Segundo ela, “no posto de saúde do bairro, rapidamente se esgotam as consultas”. Virou comportamento “automático”: quando necessita, vai direto ao PAM. Existem muitos nessa mesma condição. Resultado: fila e sobrecarga.

De acordo com a coordenadora, o PAM de SJN adota o Protocolo de Manchester como o processo de triagem e determinação da prioridade de atendimento. Trata-se de um sistema adotado mundialmente, que funciona online com a Secretaria de Estado da Saúde (SES). Os pacientes que chegam são avaliados por um profissional do PAM, que registra as queixas e informações no sistema. Este, por sua vez, classifica os doentes de acordo com cores, que representam a gravidade do quadro e o tempo de espera para cada paciente.

Cores indicam a prioridade do atendimento e o tempo de espera do paciente
Cores indicam a prioridade do atendimento e o tempo de espera do paciente

 

Na prática, nenhum dos usuários entrevistados disse ter visto ou recebido as pulseiras coloridas na triagem do PAM.  Relataram que, em atendimentos anteriores, realizados em outras ocasiões, nunca viram funcionar a triagem com o sistema de pulseiras. A reportagem do SJ Online esteve no local diversas vezes, e também não observou pulseiras de triagem nos pacientes.

SISTEMA MUNICIPAL DE SAÚDE

Muitos dos atendimentos que acontecem no PAM, na prática, deveriam ser absorvidos pelo Programa Saúde da Família ou pelo sistema de saúde municipal, que inclui a Policlínica e as Unidades Básicas de Saúde (UBS). Todos estão sobrecarregados.

O sistema municipal de saúde oferece uma gama ampla de atendimentos, consultas e exames. Quando não há cobertura ou não há disponibilidade do exame ou serviço, os pacientes são encaminhados para a rede pública de Juiz de Fora. Ou vão bater na porta do PAM.

Na Policlínica, são oferecidas, de forma gratuita, especialidades como: otorrinolaringologia, Ortopedia e traumatologia, clínica geral, cardiologia, ginecologia e obstetrícia, psiquiatria, pediatria, dermatologia, oftalmologia e cirurgia geral. A equipe é composta ainda de enfermeiros, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e farmacêutico.

Clique para conferir a lista completa de especialidades e funcionários da Policlínica de SJN.

Programa Saúde da Família (PSF)

Em São João Nepomuceno, existem cinco unidades do Programa Saúde da Família (PSF): no Benetti, no José Maria Fam, no Santa Rita, nos Três Marias e um no distrito de Roça Grande. O último é a sede do PSF na zona rural. Ainda existem outros seis postos nos distritos e povoados: Carlos Alves, Taruaçu, Itui, Araci, Braúna, Cafés, que recebem, periodicamente, a visita do médico responsável.

Segundo a coordenadora da atenção básica, Caroline Bairral, as unidades funcionam de 7h às 17h, de segunda à sexta, dentro da cidade, e de 7h às 16h, na zona rural. Durante a manhã, há o acolhimento e a marcação de consultas, de acordo com o quadro de cada paciente. As consultas podem ser marcadas para o mesmo dia ou reagendadas para outros dias. Caroline afirma que todos os pacientes são ouvidos. “Todas as pessoas que forem ao posto e solicitarem atendimento, serão acolhidas”, explica.

O Programa Saúde da Família (Estratégia Saúde da Família) é uma iniciativa do Governo Federal e foi criado com o intuito promover a saúde da população nos bairros e postos mais próximos das residências. É composta por equipe multidisciplinar de profissionais, que inclui médico, enfermeiro, e agentes comunitários. A orientação do PSF é trabalhar a prevenção e os atendimentos básicos, de baixa complexidade.

As unidades do PSF nos bairros disponibilizam serviços como orientações para gestantes, hipertensos e diabéticos, exames de preventivo, vacinação, teste de toxoplasmose e teste do pezinho.

Onde encontrar os postos do PSF

– Centro de Saúde Dr Nagib Camilo Ayupe (Benetti)

Rua João Batista Lima, s/n

Telefone: 3261- 3283

Médico: Dra. Sônia Maria Costa Dalton

– PSF Santa Rita/ Santa Terezinha (Santa Rita)

Rua do Carmo, s/n

Telefone: 3261- 4114

Médico: Dr. Fred Alvim

– PSF Três Marias/ Unidade de Saúde bairro Três Marias (Três Marias)

Rua Antônio Duarte Bezerra

Telefone: 3261- 2652

Médico: Dr. Gabriel Mota Campos

– UAPS Adil Pimenta de Souza (Jose Maria Fam)

Rua Carlos Peregrini Rocha

Telefone: 3261- 3254

Médico: Dr. Moysés Assafin

– Posto de Saúde Joaquim Mendonça (Roça Grande)

Rua Pedro Crecembene

Telefone: 3267- 3140

Médico: Dr. Márcio Roberto Araújo Moura

 

SUS não é de graça

De acordo com a coordenadora do PAM, Luciane Vieira Dutra, o simples fato de o paciente ir até o pronto socorro e preencher uma ficha de atendimento, gera um custo médio de R$ 50,00. Casos que não apresentam urgência, além de onerarem o orçamento apertado do PAM, geram sobrecarga na equipe e prejuízo na qualidade do atendimento para quem realmente precisa.

Apesar da estrutura montada para atender com qualidade os pacientes em estado grave, a coordenadora relata que é comum estacionarem vans de outras cidades e descerem pessoas para serem atendidas, sem qualquer classificação de urgência. “Além de fugir do nosso objetivo, que são os atendimentos graves e de urgência, não temos nenhuma contrapartida ou parceria desses municípios para o custeio das despesas”, disse Luciane.

De acordo com a supervisora, outra prática corriqueira, que deixa claro o mau uso do PAM, são as pessoas que vão em busca de atestado médico e outras que têm preferência por determinados profissionais e telefonam para saber quem está de plantão. De acordo com a informação, decidem se vão ou não até o PAM. Ou seja, urgência nenhuma.

Para quem faz mau uso do PAM, a coordenadora orienta: “Pronto atendimento médico não é lugar para realizar consultas, solicitar atestado médico ou demandar avaliação de exames. Trata-se de um local insalubre, com alta circulação de doentes e alto risco de contaminação. As pessoas devem evitar ao máximo ir até o PAM. Somente se houver necessidade. Devem evitar levar crianças e fazer visitas”.

Por Diego Camilo e Darlene Braga

 

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